Tropa de choque do agronegócio tenta desqualificar estudo que encontrou resíduos de agrotóxicos no leite materno

Hoje, dia 03 de julho, ocorreu uma audiência pública na Câmara dos Deputados sobre o risco de contaminação por agrotóxicos. Mais uma vez, a tropa de choque do agronegócio apareceu para tentar desqualificar um estudo sério desenvolvido pela Universidade Federal do Mato Grosso. Este estudo encontrou resíduos de agrotóxicos em 100% das amostras coletadas de leite materno.. Isso mesmo, leite materno.

Outros estudos realizados também tem encontrado contaminação por agrotóxicos ao meio ambiente e as pessoas.

Aonde estão os estudos que comprovam os “benefícios ambientais” dos agrotóxicos? Aonde estão os estudos que comprovam os benefícios dos agrotóxicos para a saúde humana?

Melhor esperarmos sentados…

Veja a matéria completa da Agência Câmara

Especialistas divergem sobre riscos de contaminação por agrotóxicos

Em audiência pública nesta terça-feira na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, especialistas e deputados divergiram sobre os riscos de contaminação por agrotóxicos. Pesquisa da Universidade Federal de Mato Grosso, discutida na audiência, constatou a presença de resíduos de agrotóxicos no leite materno.

Médico e coordenador do estudo, Wanderley Pignati, confirmou a contaminação de um alimento natural que deveria ser puro. “Não existe legislação, nacional nem internacional, dizendo o quanto de agrotóxico é permitido no leite materno. Não é para ter nada”, afirmou, ao informar que a pesquisa analisou dez tipos de agrotóxicos. Um deles, o DDE, estava presente em 100% das amostras; o Endosulfan, em 76%; e o Deltametrina, em 34%.

O DDE é um derivado do inseticida DDT, que teve o uso agrícola proibido em 1985. O Endosulfan, que resiste por até seis anos no meio ambiente, tem prazo para sair do mercado até julho de 2013, por determinação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Males à saúde
Câncer, aborto e danos cardiorrespiratórios estão entre os males que esses produtos causam à saúde humana. Segundo Pignati, só o Mato Grosso usa, em média, 113 milhões de litros de agrotóxicos por ano. Em todo o Brasil, ele acredita que esse volume chegue perto de um bilhão de litros, contaminando a população em geral por meio da alimentação, ar e água.

“Uma pesquisa que a gente tem feito junto com a Fiocruz, já há quatro anos, monitora resíduos de agrotóxicos em poços artesianos, no ar e na chuva. Porque uma parte desses agrotóxicos evapora, condensa e desce na chuva. A gente colocou coletor de chuva em pátio de colégios, tanto na zona urbana quanto na zona rural, e está lá a presença de vários tipos de agrotóxicos na chuva. Não é chuva ácida. É chuva que contém resíduos de agrotóxicos, para se ver o tamanho da contaminação que está acontecendo no Brasil”, relatou.

Segundo o pesquisador, a contaminação atinge tanto as grandes plantações de soja e cana quanto as pequenas culturas de pimentão, tomate e alface. Para reverter esse quadro, Pignati sugere a adoção de modelos alternativos de produção, como o orgânico ou o agroecológico.

Críticas ao estudo
Já a Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef) levou outros cientistas à audiência para afirmar que a pesquisa da Universidade é baseada em dados e métodos imprecisos, que mostram resultados “inconclusivos e não confiáveis”. O gerente de regulamentação da Andef, Guilherme Guimarães, garantiu que o protocolo de uso de agrotóxicos no Brasil segue padrões internacionais.

“O Brasil usa porque é necessário, pois temos talvez a maior área agricultável tropical do mundo. Para você ter uma ideia, se a ferrugem da soja vier em uma cultura, ela pode destruir 100% caso não controlada a tempo. Em média, 40% a 45% das colheitas não são perdidas pelo uso de agrotóxico”, explicou. Guimarães ressaltou que todos esses produtos são aprovados pela Anvisa ou pelo Ibama. “Então, se estiver dentro do uso correto, nós não vemos nenhum problema para a saúde ou para o meio ambiente”, afirmou.

O professor de Química da Universidade de São Paulo e superintendente do Instituto Brasileiro de Referência Ambiental, Eduardo Peixoto, disse ter submetido a pesquisa do UFMT ao rigor científico e detectou problemas quanto aos limites de detecção e quantificação do estudo, à validação do método e ao número de amostras analisadas. Ele sugeriu que a pesquisa fosse refeita.

Felix Guillermo Reyes, professor de toxicologia de alimentos do Departamento de Ciências de Alimentos da Unicamp, elogiou a pesquisa, mas também disse ter sentido falta de alguns elementos fundamentais para a validação do método científico.

O pesquisador Pignati rebateu as críticas quanto à imprecisão de seu estudo, lembrando que a pesquisa teve a coordenação da Fiocruz e cita outros 15 trabalhos já realizados no Brasil e com resultados ainda mais alarmantes.

Mais clareza
Autor do requerimento para a realização do debate, o deputado Stefano Aguiar (PSC-MG) disse que a intenção do debate não era fazer uma “caça às bruxas”, mas buscar maior clareza quanto aos reais níveis de agrotóxico sobre o leite materno e outros alimentos, além de seu poder de contaminação.

Leonardo Prado
Audiência pública para analisar pesquisa desenvolvida pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) que apontou resíduos de agrotóxicos em leite materno. Dep. Valdir Colatto (PMDB-SC)
Valdir Colatto afirmou que a Anvisa demora a liberar defensivos menos danosos e mais baratos.

Os deputados Valdir Colatto (PMDB-SC) e Paulo Cesar Quartiero (DEM-RR) disseram que há exageros na pesquisa da UFMT e garantiram os agricultores brasileiros têm plena preocupação com o controle de suas lavouras sem prejudicar a saúde humana. Colatto também reclamou de demora da Anvisa na liberação do uso de novos defensivos agrícolas menos contaminantes e mais baratos para o produtor.

Segundo a Anvisa, 14 agrotóxicos comercializados no Brasil passam por reavaliação da agência desde 2008. A análise é lenta porque enfrenta ações judiciais dos fabricantes e a agência só conta com 21 funcionários neste setor. Treze desses produtos já foram proibidos nos Estados Unidos.

Reportagem – José Carlos Oliveira/Rádio Câmara
Edição – Maria Clarice Dias
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