O poder do agronegócio nos Estados na Rio + 20

O poder do agronegócio sobre os Estados na Rio+20

terça-feira, 8 maio, 2012

por Eduardo Sá, no Brasil de Fato.
A agroecologia, pouco mecanizada, é o futuro da agricultura, segundo economista (foto: IRRI Images/CC BY-NC-SA 2.0)
Com vasta experiência na área agroecológica no Brasil, o economista Jean Marc Von Der Weid participou
junto à sociedade civil da ECO 92 e vem acompanhando desde a década de
1980 os movimentos ambientais no Brasil. Atualmente é coordenador de
Políticas Públicas da ONG Agricultura Familiar e Agroecologia (AS-PTA) e membro da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA).
Nesta entrevista, ele fala sobre a perspectiva de fracasso da
Rio+20, as forças políticas e interesses que estão em xeque, a falsa
visão ambiental da economia verde e aponta a agroecologia como solução
para muitos problemas climáticos e energéticos no planeta. Segundo o
estudioso e militante, a tendência é uma regionalização da cadeia
produtiva alimentar e a potencialização da agricultura familiar para
garantir a alimentação dos povos.

Você pode primeiro contextualizar o evento que ocorreu no
Rio de Janeiro em 1992 e os compromissos que foram cumpridos ou não nestes 20 anos?
As diferenças entre 1992 e a Rio+20 são radicais e contraditórias.
Porque hoje você tem muito mais crítica sobre o modelo de
desenvolvimento e o sistema capitalista no mundo, e muito mais
informação dos impactos ambientais. No entanto, naquela altura havia
mais interesse dos governos em discutir esses problemas e enfrentar as
questões. É paradoxal, mas é assim. Hoje as multinacionais e grandes
empresas estão atuando a fundo tanto nos espaços nacionais para definir
as políticas e programas de seus governos na Rio+20, como participando
das delegações oficiais e criando espaços paralelos de debate. Houve
uma série de resoluções importantes do ponto de vista do meio ambiente
e do desenvolvimento em 92, que hoje em dia não tem nada similar sendo
discutido: a Convenção da Biodiversidade e a do Clima, a própria Agenda
21, etc.

De lá para cá existe, tanto na questão climática quanto na
biodiversidade, um processo de erosão das decisões que foram tomadas,
as resoluções foram esvaziadas paulatinamente. A questão do clima se
transformou depois na reunião de Copenhagen, que rigorosamente não tem
mais nenhum tipo de compromisso internacional que seja levado a sério.
E o governo estadunidense nunca entrou nos compromissos internacionais
sobre a questão climática. O resultado é uma porcaria, e sequer envolve
o compromisso dos estadunidenses em aplicar as tais resoluções.
A construção da questão ambiental está muito mais enfraquecida. A
fórmula da Rio+20 tem evitado fazer um balanço do que aconteceu nos
últimos 20 anos, e o balanço é lamentável. Você tem algo oficioso pela
ONU que pega todos os acordos feitos de 1992 para cá e sucessivas
reuniões daquelas decisões. Mas não tem nenhuma situação de progresso
internacional do ponto de vista objetivo, e nem do arcabouço jurídico
institucional que deveria reger essas mudanças. Pelo contrário, e o
resultado é que houve uma aceleração do processo de aquecimento global.
Na questão da biodiversidade, estamos perdendo espécies mais
rapidamente, sobretudo porque entrou em jogo a produção transgênica,
que foi um arraso em relação à variedade genética. E várias outras
coisas, como perdas de solo e água.

Até que ponto vai a influência da participação corporativa nas negociações?

A iniciativa empresarial apagou o que estava acontecendo e
simplesmente começou tudo de novo. Em 1992 instituiu-se a ideia de
desenvolvimento sustentável, que sempre foi complicada. O princípio era
interessante, mas quando se define sustentabilidade cada um dá a sua
definição. A Monsanto e a Coca Cola dizem que o que elas fazem é
sustentável, por exemplo. Quando você não tem um critério estabelecendo
um conceito universal, cada um faz e fala o que bem entende. Atualmente
está sendo lançado um novo conceito de economia verde que, na prática,
é mais do mesmo pintado de verde. Transgênicos e agrotóxicos são
apresentados como economia verde.
Estamos num momento muito ruim do ponto de vista do destino da
humanidade, porque os governos estão extremamente enfraquecidos. Essa é
outra grande diferença de 92, quando havia uma expansão da economia
internacional que praticamente só fez acelerar até 2008. Se você
descontar a economia da China e da Índia, que ainda se mantêm em
expansão acelerada, embora o ritmo tenha diminuído, o resto do mundo
está paralisado. Não é um bom momento para você falar em reformar o
sistema e aplicar recursos para mudar a base produtiva, porque os
governos não vão mudar. Eles querem manter as coisas como estão, e
rezar para que o meio ambiente não reclame.

A tendência é que não ocorram avanços na Rio+20?

Os organizadores acham que não vai ter avanço. O francês Brice Lalonde, que é secretário da Rio+20, disse em público que confiava na sociedade civil
para agitar a Conferência. Mas a sociedade civil não está imune aos
problemas que o conjunto da economia mundial está passando. Muitas
organizações sociais estão na defensiva tentando segurar os direitos
conquistados ao longo de 50 anos, porque a contraofensiva patronal hoje
na crise financeira é para derrubar os direitos dos trabalhadores. A
receita aplicada na Grécia é a ameaça para todo mundo. E ao mesmo tempo
as empresas não perdem nada, pelo contrário, com a ameaça de quebra o
Estado sai bancando o prejuízo. Os bancos são os primeiros
beneficiários, os grandes gerentes do sistema financeiro internacional
continuam ganhando uma baba sem restrição nenhuma. Por outro lado, você
tem muito mais capital de conhecimento acumulado pela sociedade civil,
principalmente científico, nos temas chave de 1992 e hoje. A
agroecologia ainda não tinha a segurança que tem para dizer que não é
uma aposta, e sim alternativa clara para o desenvolvimento.
Experiências apontam saídas e soluções para a nossa crise sócio-
econômica-ambiental.

Você falou que a gente vive uma crise ambiental sem
precedentes. Quais são as questões mais graves que a humanidade
enfrenta hoje?

Você tem dois tipos de riscos, um ambiental e outro econômico
energético. A questão ambiental mais grave, nos próximos 50 anos, é o
aquecimento global, cujos efeitos são devastadores e em múltiplas
direções. Começando por desestabilizar o sistema produtivo agrícola de
forma brutal, e tudo com consequência direta na segurança da
humanidade. O aquecimento global pega pesadamente na qualidade da água
e quantidade e qualidade de alimentos. A agricultura está no coração
dos problemas energéticos e do aquecimento global, mas ninguém está
discutindo o que vai acontecer do ponto de vista energético nos
próximos tempos.
Uma das propostas da economia verde na energia é você substituir
combustíveis fósseis por eólico, hidroelétrico, hidráulico, etc. Mas
não é discutido a fundo o quanto precisa fazer e em que velocidade para
responder os problemas de queda na oferta de energia nos próximos 30
anos. Há uma avaliação cada vez mais generalizada de que a era do
petróleo e gás está acabando, e as implicações são absolutamente
colossais para a humanidade. Não há ainda nenhuma alternativa verde que
dê conta dessa perda. Os custos vão ser muito mais altos, e a
dificuldade de implantação vai exigir um tempo de transição muito
grande. A crise vai pegar mesmo no fígado.

E o Brasil está vindo com o pré-sal na contra mão da história…

Nós estamos achando petróleo numa quantidade razoável porque
as descobertas no mundo são cada vez menores e o consumo vem crescendo
muito rápido. A tendência geral é de queda e custos mais altos com
impacto enorme na economia. Isso vai desorganizar a economia do mundo
como um todo. O sistema alimentar mundial, hoje, tem um custo
energético monstruoso para produzir, processar, transportar e uma perda
colossal no consumo. Tem desperdício ao longo da cadeia, mas o
desperdício final, sobretudo nos países mais desenvolvidos, vai além de
30%. Dados apontam para um desperdício de alimentos nos Estados Unidos
é dez vezes superior ao da África subsaariana. O sistema mundial foi
bolado num período de baixíssimo custo de transporte, com petróleo a
preço de banana. O custo médio nos Estados Unidos de um alimento normal
no prato de um americano é de 5 mil milhas de viagem. No Canadá são 12
mil em média, então esse tipo de situação vai ser completamente
desarticulada e desorganizada. E se fizer biodiesel e álcool
combustíveis, vai pegar na cadeia alimentar pesadamente. O Fidel Castro
fez uma comparação dizendo que o álcool combustível, com esse negócio
do biodiesel, é botar em concorrência a alimentação do pobre com o
carro do rico.

Você falou da crise climática e uma crise energética, e as duas estão associadas…

Enquanto você não tem uma solução energética de combustíveis
fósseis, a tendência é o mundo usar até o limite. Na medida em que o
petróleo está ficando caro, por exemplo, está voltando a se utilizar o
carvão que é o maior emissor de gases de efeito estufa. É um círculo
vicioso. A aceleração do processo de substituição não pode vir
simplesmente pela extinção do que existe, você tem que antecipar com
alguma solução que evite uma situação dramática. Os recursos naturais
renováveis têm a ver, por exemplo, com as estruturas: água, solo,
biodiversidade, que são altamente ameaçadas. Nos anos 90 já tinha perda
de aproximadamente 46% de toda a área cultivada em culturas anuais. São
em torno de 2 bilhões de hectares de área de cultivo, e em torno de 12%
já está inviabilizado para produção. Os índices mais pesados são os da
agricultura convencional, o agronegócio, até porque são os que ocupam
as melhores terras do mundo. E a água está acabando por várias razões,
entre elas o aquecimento global, que está interferindo, por exemplo,
nos sistemas de irrigação na Índia e em todos os países dos Andes.
Estes dependem desde o tempo dos incas do derretimento da neve na
estação do verão para alimentar os rios e córregos para fazer
irrigação. O problema é que atualmente você tem invernos em que não
neva. Na Índia é pior ainda, porque os glaciários do Himalaia estão
derretendo e quando acabar o Ganges seca.

Quais experiências propõem uma alternativa para essa crise energética e climática que você está desenhando?

Na verdade não há nenhuma solução elaborada que permita você
dizer que tem um modelo econômico macro, em grande escala, que responda
a essas questões mundialmente. Uma coisa fundamental que já vem sendo
batida desde o relatório de 1972 é a necessidade de alterar o modelo de
consumo do mundo. A começar pelo consumo energético como, por exemplo,
a civilização do automóvel individual que está condenada. Você tem que
criar uma sociedade que funcione com o transporte público e circuitos
mais econômicos. Porque o automóvel, em particular o dirigido por uma
pessoa, é uma das coisas de pior eficiência energética que você pode
achar no mundo. E outras coisas, como no consumo alimentar esse negócio
da milhagem. A pessoa vai ter que se alimentar de acordo com o que é
possível produzir com a menor distância possível para ela consumir.
Então você vai alterar os regimes alimentares mundo afora, relocalizar
o sistema alimentar e, inclusive, mudar as dietas.
Do ponto de vista da produção, na agricultura o futuro é claramente
a agroecologia. É um sistema de balanço energético positivo. Nos
Estados Unidos, para cada caloria servida ao freguês você investe 10.
Com o sistema agroecológico você vai reduzir a emissão de gases de
efeito estufa, segurar as questões de destruição de solo e a economia
no uso de água, além da conservação de biodiversidade. A agroecologia
pode ser operada em níveis muito variados. É um sistema múltiplo de
cultivos e criações intercalados com vegetação nativa manejado de uma
forma sistêmica. A estratégia da agroecologia é mimetizar os sistemas
naturais, você se aproxima da diversidade natural para usar o seu
sistema produtivo. É a melhor produtividade possível por área, mas tem
uma série de restrições. Para você manejar um sistema altamente
diversificado e complexo, você vai precisar de mão de obra qualificada.
E vai ter um limite da quantidade de área por mão de obra utilizada,
pois são sistemas em que o nível de mecanização é baixo. Uma proposta
agroecológica no limite de seu potencial de diversidade é, por exemplo,
o sistema de Fukuoka, no Japão, cujo cultivo é misturado dentro do
mato. Tudo é essencialmente manual, não tem absolutamente nenhuma
operação mecanizada. Mas você pode fazer coisas intermediárias, não
deixa de ser agroecológico, mas certamente o nível de eficiência é
menor pois o ideal é o máximo de diversidade de sistema.
Para você fazer um sistema altamente produtivo de agroecologia vai
precisar de agricultores familiares, que são os que têm interesse e
conhecimento. Não é um sistema que opere bem com mão de obra
assalariada, pois esta só funciona com tarefas simples como cortar
cana, colher maçã, conduzir o gado, etc. Se você vai pedir uma tarefa
extremamente complexa ele não tem interesse, porque vai ganhar igual
por hora de trabalho. E é o trabalho não alienado, com interesse direto
de quem vive daquilo e de tudo que ele acumulou de conhecimento para
fazer aquele negócio. Há uma simbiose perfeita entre a agroecologia
levada a seu limite máximo e a agricultura familiar. Isso significa que
no futuro precisa de muito mais agricultura familiar do que você tem
hoje.

Isso é uma solução para o inchaço das cidades?

Com certeza, mas a questão dos Estados Unidos, por exemplo, é
que eles têm 2 milhões de agricultores e precisariam botar 38 milhões
no campo. Não é uma coisa que você faça de uma hora para outra, nem que
faça bem. Quando a crise se colocar, eles vão precisar de gente para
produzir alimentos e não vão ter, pois os desempregados nas cidades não
têm conhecimento. Cuba é um bom exemplo de crise energética, pois viveu
numa porrada só o que o mundo está vivendo aos pouquinhos: a perda da
energia fóssil. Eles dependiam do petróleo russo para operar e de
repente parou tudo do dia para noite, porque a agricultura era toda
mecanizada. Eles tiveram que reformar o sistema produtivo de grandes
fazendas mecanizadas em propriedades familiares cooperativas. O grande
problema foi achar gente, é uma operação complicada porque se perdeu
conhecimento. E a nossa situação dramática no Brasil é um processo de
perda de conhecimento muito grande, porque a reforma agrária estancou.
No período do Lula houve uma evasão violenta de juventude no campo, e
quem é que vai herdar o conhecimento e continuar a tocar as coisas?

O agronegócio está bem estabelecido no campo brasileiro?

Ainda tem uma área grande na mão da agricultura familiar, mas
a tendência, até por pressão do governo, é mecanizar isso também.
Aquele programa “Mais alimentos”, que os movimentos chamam de “mais
trator”, levou a mecanização pesada principalmente no sul. Mas em
muitos lugares significou que o cara para mecanizar tem que fazer
monocultura, imediatamente um puxa o outro. Nós temos um patrimônio
cultural e um campesinato bastante rico, mas estamos vivenciando um
processo de erosão de conhecimento e de abandono do campo. No meu
cálculo, para o Brasil seriam necessárias 15 milhões de famílias para o
desenvolvimento agroecológico, e atualmente a agricultura familiar deve
ter 4,5 milhões. No governo Lula você tinha expectativa de fortalecer a
agricultura familiar e apertar um pouco os impactos do agronegócio, mas
não aconteceu. O agronegócio está nadando de braçada e ganhou força, e
querem impor o Código Florestal. Vamos ver se a Dilma vai ter coragem
de vetar.

Você pode fazer uma radiografia da agroecologia no Brasil?

A agroecologia deve ter cerca de 40 anos. O nosso programa foi
um grande impulsionador da agroecologia no Brasil, quando começou em
1983 ainda era algo confinado a alguns profissionais das ciências
agrárias isoladas. Uma garotada da Federação dos Estudantes de
Agronomia, os grupos de agricultura ecológica, era um troço pequeno.
Naquela altura você tinha a agricultura orgânica na direção da
agroecologia com a biodinâmica. De lá para cá houve um avanço muito
grande da agroecologia, a Articulação Nacional de Agroecologia
(ANA) é uma expressão de movimento agroecológico significativo que
envolve tudo: conhecimento tradicional, indígena, inovações da
agricultura familiar e científica, etc. Existem exemplos suficientes
pelo país afora, não só em outros países do mundo, que mostram o
sucesso da agroecologia. São várias sistematizações que têm uma
eficiência maior que o sistema tradicional. Existem óticas e
interpretações variadas porque, por exemplo, tem áreas com uma
influência maior do sistema de produção orgânico, que está mais
preocupado em produzir para um nicho de mercado, pois paga mais caro,
mas acho que limita um pouco o sistema de produção agroecológico:
poucos agricultores para poucos consumidores.
O sistema de agricultura orgânica no mundo padece desse impasse,
porque o sistema de regulação, de certificação, é um sistema de
produção de mercado em muitos lugares. Eu vi isso na França. Quando
teve a crise da vaca louca houve um hiperaumento de demanda para
produtos orgânicos. E o presidente da Federação de Produtores de
Agricultura Orgânica disse que estavam cheios de agricultores, mas o
sistema de certificação apertou os critérios de conversão. Freou a
capacidade de novos orgânicos entrarem no mercado.

Quais as dificuldades da aproximação da agricultura familiar com a agroecologia?

O agricultor familiar enfrenta muitas barreiras com a
legislação sanitária, porque é montada para beneficiar grandes
extensões. E para conversão de um agricultor à agroecologia você
precisa mostrar que o meio ambiente é importante para ele produzir para
ganhar. Frequentemente você entra com diminuição de custo de produção,
tirando o agrotóxico, produzindo com semente crioula e sem adubo
químico. E a tendência desses insumos é aumentar a um ponto que o cara
vai ver que esse sistema mais integrado não só vai reduzir os custos de
produção, como aumentar a produtividade. E, sobretudo, diminuir o
risco. Aos poucos ele começa a ver que os elementos ambientais jogam um
papel no sistema agroecológico: primeiro deles é a conservação do solo.

Então o maior desafio da agroecologia é a capacitação?

Capacitação. E acho que tem uma questão pedagógica, uma abordagem correta é conseguir mostrar passo a passo que
essas práticas têm um impacto importante no ponto de vista de custo, de
risco, de benefício para saúde e econômico. Isso é uma questão
fundamental.

***

Jean Marc Von Der Weid é economista e participou da ECO 92.
Atualmente é coordenador de Políticas Públicas da ONG Agricultura
Familiar e Agroecologia (AS-PTA) e membro da Articulação Nacional de
Agroecologia (ANA)

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