SINPAF – Lançamento do documentário “O veneno está na mesa”, em Brasília, mostra força da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e Pela Vida

O filme denuncia malefícios dos agrotóxicos e mostra a viabilidade da produção de alimentos saudáveis por meio da agroecologia

Elizângela Araújo
SINPAF

Cerca de 600 pessoas, entre militantes de movimentos sociais de agricultores, estudantes, sindicalistas, parlamentares e acadêmicos prestigiaram o lançamento do documentário “O Veneno está na mesa”, na noite desta segunda-feira (22/8), no Museu Nacional da República, em Brasília. O evento foi promovido pelo Comitê Distrital da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e Pela Vida e teve a participação do documentarista Silvio Tendler, que dirigiu o filme.

Com narração de Amir Haddad, Dira Paes, Julia Lemmertz e Caco Ciocler, o documentário tem cerca de 50 minutos e denuncia as consequências negativas do uso dos venenos na produção de alimentos, tanto para a saúde dos trabalhadores que os aplicam quanto para os consumidores, e os malefícios econômicos, sociais e ambientais advindos desse modelo de agricultura. Como contraponto à ideia de que esses produtos são indispensáveis à produtividade, o filme também mostra exemplos de pequenos agricultores que produzem alimentos saudáveis e abundantes por meio da agroecologia.

A ideia de realizar o documentário, conta Tendler, nasceu durante uma conversa com o escritor uruguaio Eduardo Galeano, há cerca de dois anos. “Ele me disse que o Brasil era o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Então voltei para o Brasil querendo fazer esse filme. Falei com o João Pedro Stedile [liderança nacional do MST], que juntou todas as informações necessárias, e o resultado está aí”.

Tendler afirma que “é uma honra participar da campanha” e que o filme é uma parte importante dela, “mas não é a única”. Para ele, fundamental mesmo é essa aliança entre as mais de vinte entidades que a articulam. “Essa campanha traz no seu DNA os movimentos sociais mais importantes do país e as entidades de pesquisa mais respeitadas. Isso a torna fundamental para a luta pela qualidade de vida da nossa população. Sou apenas um cineasta que conseguiu pôr na tela o pensamento desses movimentos”, declarou logo após a exibição do filme.

João Pedro Stedile, que está em Brasília participando das atividades do acampamento da Jornada Nacional de Lutas da Via Campesina e da Assembleia Popular, também participou do lançamento do documentário. Ao abrir o evento, o dirigente nacional do MST lembrou que os agrotóxicos são impostos pelo modelo do agronegócio “baseado na monocultura de exportação, dominado pelas empresas fornecedoras de insumos e que controlam o mercado de commodities”.

Stedile reafirmou que a produção de alimentos em grande escala “só é possível com uso intensivo de venenos, para matar todas as outras formas de vida, para acabar com a biodiversidade – mata plantas, pássaros etc., e as moléculas dessas substâncias químicas ficam nos alimentos e acabam matando também não só quem os aplica, mas quem consome os alimentos contaminados. O número de casos de câncer provocados por esses venenos já é alarmante”.

A declaração de Stedile pode ser constatada no documentário em diversos momentos, mas um dos mais chocantes é a história de um trabalhador de 29 anos que fazia a mistura desses venenos para aplicação numa fazenda, na qual trabalhou por cerca de três anos, e morreu após quatro meses de agonia por causa da contaminação pelos venenos. A intoxicação foi atestada num laudo assinado por quatro professores da Universidade Federal do Ceará.

Para Stedile, a Campanha Permanente contra o Uso de Agrotóxicos e Pela Vida representa uma pluralidade das forças mais progressistas da sociedade brasileira. “O primeiro passo para tentarmos brecar o uso dos agrotóxicos é conscientizar a população, tanto o produtor rural, que está na ponta, quanto o consumidor, que vai botar tudo isso para dentro do seu estômago”.

O filme também traz depoimentos de agricultores que mesmo precisando de financiamento resolveram romper com o modelo legitimado inclusive pelo Estado, cujas políticas de concessão de crédito requerem o uso comprovado de agrotóxicos.

Rogério Thomaz Jr

Platéia aplaude Tendler, que sentou-se na última fileira

Brasil: agroexportador consumidor de produtos manufaturados

Tendler é detentor das três maiores bilheterias brasileiras de documentários – “O Mundo Mágico dos Trapalhões” (1 milhão e 800 mil espectadores), “Jango” (1 milhão de espectadores) e “Anos JK” (800 mil espectadores). Durante o debate que sucedeu a exibição do filme, ele demonstrou preocupação com a escolha do modelo de desenvolvimento que teima em vigorar no país.

O documentarista lembrou que o processo de industrialização iniciado por Juscelino Kubitschek tem ficado em segundo plano por causa do agronegócio. “Estamos voltando a dar ênfase na ideia de ser um país agroexportador e consumidor de produtos manufaturados. Estamos vendendo soja para o Japão alimentar porco e comprando produtos chineses. É uma política equivocada. Essa campanha também é para se lutar contra esse modelo”.

Para ele, embora a soja, que é uma commodity, seja uma das maiores consumidoras de agrotóxicos, “não podemos esquecer o eucalipto, o deserto verde que destrói a terra e consome toda a água para produzir papel”.

Tendler também adiantou que já está trabalhando em outros dois filmes. Um deles sobre o protagonismo político das mulheres camponesas e outro sobre agricultura familiar. “De uma certa maneira, acho que é a melhor resposta que podemos dar ao agronegócio, pois abordando esses temas falamos de todos os outros problemas nefastos para a economia e o campo brasileiro. Vamos colocar na tela o Brasil que quer se discutir e quer se construir”.

Raquel Torres – EPSJV/Fiocruz

Tendler trabalha em dois novos filmes. Um sobre o protagonismo político das mulheres camponesas e outro sobre a agricultura familiar

Campanha ganha força no país inteiroCleber folgado, coordenador da secretaria nacional da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida, informou que já há comitês em mais de 20 estados brasileiros. “Envolvem desde ambientalistas a militantes de movimentos sociais, estudantil e sindical, além de acadêmicos”.

Para ele, o sucesso da campanha depende da responsabilidade de cada militante construí-la. “Estamos trabalhando com a capacitação de profissionais como os da área da saúde, por exemplo, e vamos estruturar também uma área jurídica, pois é necessário brigarmos também no campo institucional”, afirmou. Nesse ponto, a primeira vitória foi a proibição, por lei municipal, de pulverização aérea de veneno em Vila Valéria-ES.

Em nível nacional, a campanha reúne entidades como o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Movimento de Pequenos Agricultores (MAB), Fundação Oswaldo Cruz, entre outras. O SINPAF é um das entidades organizadoras no Distrito Federal.

Como assistir ao filme

O documentário está disponível no YouTube (http://www.youtube.com/watch?v=8RVAgD44AGg). Para obter o DVD, entre em contato com a coordenação da campanha pelo e-mail contraagrotoxicosdf@gmail.com.

Link direto em: http://www.sinpaf.org.br/modules/smartsection/item.php?itemid=476

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