Revista do Brasil – Resistentes aos agrovenenos

Maior polo de agroecologia do país garante a produtores e consumidores qualidade de vida, mas agrotóxicos de vizinhos e falta de mão de obra ameaçam empreendimentos

Por: João Peres. Fotos desta reportagem: © Gerardo Lazzari

Resistentes aos agrovenenos

Alberto, “Sempre trabalhei na lida orgânica. Nunca usei tóxico” (fotos desta reportagem: Gerardo Lazzari ©)

Capanema, meio sem querer, meio querendo, transformou-se no principal polo organizado de agroecologia do Brasil. Na cidade, 250 agricultores produzem em núcleos familiares voltados à alimentação orgânica e preocupados com uma prática social e ambientalmente justa. “Sempre trabalhei na lida orgânica. Nunca usei tóxico. Melhor para mim, para a saúde, para o meio ambiente”, afirma o produtor Alberto José Fritzen­.

Com a ajuda de um chapéu de palha e de um trator, esse homem de 56 anos, cabelos bagunçados, joga esterco em suas terras numa tarde quente de maio. Cuida da produção de mandioca, milho, feijão, arroz, batatinha, cebola, alho e repolho. De cima do trator, sempre com a boca em forma de sorriso, conta que está há 32 anos em Capanema, cidade no extremo oeste do Paraná, a 550 quilômetros de Curitiba e a 20 da fronteira com a Argentina.

Fritzen viveu o começo do movimento desses produtores atentos à própria qualidade de vida e à dos seus consumidores. Cansados dos danos do agrotóxico, muitos deles empreenderam o caminho de volta à cultura dos pais e dos avós. Até a primeira metade do século 20, a humanidade havia se alimentado durante algumas dezenas de milhares de anos sem se preocupar com “defensivos” agrícolas. O desenvolvimento de uma hostil indústria agroquímica, no entanto, trouxe consigo a promessa de que era possível produzir mais, melhor e com melhores preços graças à aplicação de algumas substâncias.

Em Capanema, alguns nem quiseram ingressar nessa viagem. Outros foram e não tardaram a retornar. No fim da década de 1980, era preciso articular uma maneira de escoar a produção orgânica, naquela época não tão valorizada quanto hoje em dia. Surgiu então a Terra Preservada, empresa que serviu de elo entre produtor e consumidor até os anos 1990. No começo deste século, foi criada a Gebana Brasil, com o propósito de garantir um mercado consumidor a agricultores preocupados com a qualidade de vida. O trabalho começou com a comercialização de soja, ainda seu carro-chefe, e com o tempo foram surgindo mercados para feijão, milho e trigo. O preço é acertado com o produtor no começo da colheita.

Para garantir que o agricultor não volte a um cultivo convencional, com uso de agrotóxicos, os compradores de orgânicos – por aqui e em quase todo o mundo – pagam bônus que tornam mais atrativa a agroecologia. Na prática, quem entra nesse segmento só pelo dinheiro sai em pouco tempo. A labuta do produtor de orgânicos é mais árdua porque, sem poder utilizar agrotóxicos, resta-lhe a força da enxada na hora de remover ervas daninhas, prejudiciais ao crescimento dos alimentos. Não é simples encontrar saídas para tornar mais fácil sua vida. “Trabalhar com pequeno é complicado. Nem dão bola para ele. Temos de desenvolver nossa própria tecnologia”, afirma César Colussi, sócio-gerente da Gebana.

Enquanto caminha pelos armazéns, ele conta os avanços obtidos na última década. Deve ser o único lugar barulhento da pequena Capanema, de 18 mil habitantes, ruas arborizadas e planejadas. As máquinas trabalham a todo o vapor no processamento de soja, que é ensacada e levada ao porto de Paranaguá, de onde é enviada à Europa, o principal mercado consumidor. Hoje, toda a produção é aproveitada: vira farelo, farinha, lecitina – usada na produção de chocolate orgânico – e até mesmo tofu, do qual são feitos outros 25 produtos. A maior parte da soja colhida em Capanema chega ao Velho Continente sem industrialização. Numa outra sala se processa o trigo. A farinha obtida vai para padarias e restaurantes de algumas cidades brasileiras.

Sem patrão, dá

Capanema PR 2011 - Pedro Rama (foto: Gerardo Lazari)

Pedro: “A gente se criou no campo. Nunca tive patrão. Se vou para a cidade, não me acostumo”

A vantagem da vida de Pedro Rama é que ele nunca teve chefe. Pode, sem que ninguém reclame, sentar-se à sombra de uma frondosa árvore em uma tarde de outono. Aos 73 anos, mantém o bigode ralo e o forte sotaque de “R travado”, herança dos colonizadores da região. Capanema foi fundada por filhos de imigrantes alemães e italianos migrados do Rio Grande do Sul, a maior parte, e de Santa Catarina. Em dia de clássico entre Grêmio e Internacional, a cidade para, tal qual fosse gaúcha, e os torcedores do time derrotado desfilam pelas ruas empurrando uma carrocinha carregada de adeptos do rival.

“A gente se criou no campo. Nunca tive patrão. Se vou para a cidade, não me acostumo”, constata Pedro, ao lado do pasto em que ficam as vacas, muitas vacas, gordas e bem alimentadas. Sem precisar lançar mão de remédios que estimulem a produção, ele e a família do filho vivem com tranquilidade. “Não plantamos muita coisa. Então, dá para segurar. Rico a gente não fica mesmo”, afirma a nora Rosane Rama, de 32 anos.

Eles têm 53 hectares de terras, mas respeitam as regras de preservação e a área plantada é muito menor. Entre quatro e seis hectares para a soja, além de milho e feijão. Para subsistência, há de tudo. Quase nada se compra fora. “Sou bem enjoada. Não como fruta do mercado. As frutas são meio murchinhas, a banana não é tão macia.”

A única preocupação de Rosane é a chegada de novos vizinhos que adoram um “veneno”. Defensivos agrícolas quase puseram a perder o trabalho dos agricultores. No ano passado, boa parte da produção acusou uma concentração tóxica maior que a tolerada pela União Europeia para o mercado orgânico. “Tivemos de examinar cada lote para entender. Contratamos uma empresa da Alemanha especialista em contaminações ambientais e começamos a rastrear. Fizemos coleta de água, de solo, de folhas, para ver onde estava a contaminação. Estava no Endosulfan”, lamenta César.

Endosulfan é um defensivo de alta toxicidade, banido em meia centena de países. Sua aplicação está associada a distúrbios nos sistemas endócrino e reprodutivo. Em 2010, uma comissão de órgãos governamentais brasileiros decidiu seguir o mesmo caminho ao estabelecer que se trata de um produto “extremamente tóxico”, a mais grave classificação existente no país. No entanto, definiu-se que a importação seria barrada na metade de 2011 e o uso, apenas em julho de 2013. Com isso, quem tinha estoques “desestocou”. E o resultado foi uma aplicação enorme nas lavouras convencionais de Capanema, contaminando os vizinhos orgânicos. “A empresa não quebrou por milagre”, diz o gerente da Gebana.

Este ano, o nível de contaminação por agrotóxico baixou bastante nas lavouras agroecológicas da cidade, mas ainda está acima do permitido em algumas, que por isso perdem um valioso mercado. Na sede da Gebana Brasil, é realizado um pré-rastreamento para saber se algum­ dos produtores usou soja geneticamente modificada ou teve sua lavoura contaminada por transgênicos do vizinho. Depois disso, a avaliação corre por conta do Instituto de Mercado Ecológico, o IMO Brasil, que certifica se o grão está dentro dos padrões e pode seguir para exportação. Tudo é lacrado e cada saco de mil quilos é numerado e rastreado­ até o destino final.

Se é justo, dá

Capanema PR 2011 - César/Gebana (foto: Gerardo Lazzari)

“Trabalhar com pequeno é complicado. Nem dão bola para ele. Temos de desenvolver nossa própria tecnologia”, afirma César Colussi (foto), da Gebana

A Gebana trabalha ainda no desenvolvimento do conceito de comércio justo. É, de certo modo, um retorno às origens. A empresa nasceu na Suíça como organização não governamental. Lá, um grupo de mulheres achou ruim o preço da banana – estava muito mais baixo que o da maçã, um produto nacional. Não fazia sentido. Investigando, descobriram que a banana era produzida em terras americanas sob o preço da exploração da mão de obra. Começaram a quebrar o elo com as empresas tradicionais, passando a fornecer diretamente ao mercado consumidor e garantindo um preço justo.

Esse movimento teve início entre os anos 1960 e 1970. Hoje, está muito mais articulado e é motivo para que muitos europeus comprem ou não determinados produtos. O selo Fair Trade, ou Comércio Justo, é concedido a produtores que levem em conta parâmetros sociais, como a eliminação de trabalho infantil ou degradante, e ambientais, sem desmatamento e sem queimadas. Isso assegura o pagamento de um bônus que se soma ao extra pago pela produção orgânica em relação à convencional. A condição fundamental desse bônus é que sua destinação seja decidida pelos trabalhadores, sem interferência da empresa ou dos consumidores.

A principal certificadora do Fair Tarde é a FLO, uma organização internacional. “O FLO Cert garante um preço mínimo. Quem quer usar o selo vai pagar ao produtor esse preço. Se o preço de mercado estiver acima do mínimo, paga-se o preço de mercado”, explica Janine Rossman, responsável da Gebana por esses certificados. Não é um trabalho simples, mas altamente rentável, e a expectativa é que se desenvolva no próximo ano no Brasil, acompanhando o crescimento do mercado­ de orgânicos e a preocupação dos consumidores com a origem daquilo que adquirem. É um trabalho fundamental para que o polo de agroecologia se mantenha e, mais que isso, deixe de ser exceção.

Sem filhos, não dá

Capanema - Deoclides (foto: Gerardo Lazzari)

Seu Deoclides: “Este ano vou segurar o orgânico. Ano que vem não sei”

Deoclides Peraro, de 61 anos, tem um vizinho imenso mas silencioso. Seus 12 hectares vão dar logo ali, no Rio Iguaçu, que lhe garante não só uma bela vista como água para a lavoura. Do outro lado já está o Parque Nacional Iguazú, portanto a Argentina. É uma mata preservada, bonita, que corta toda a região da Tríplice Fronteira, com Brasil e Paraguai. A cidade vizinha, a 40 quilômetros, é Comandante Andrecito. Uma cooperativa argentina também fornece para a Gebana, a exemplo do que ocorre no Paraguai, em dois projetos ainda em fase de crescimento.

Do lado de cá, seu Deoclides é só ele e a esposa para plantar até oito hectares de lavoura, cinco apenas de soja. “A mão de obra está ficando cada vez mais difícil. Este ano ainda vou segurar o orgânico, mas o outro ano, não sei. A gente não tem ideia fixa de continuar porque também está ficando bem pesado.” Ele lamenta a possibilidade de ter de passar a produzir com uso de agrotóxico, e não está só.

Estimulados pelo atual modelo de desenvolvimento, os filhos dos produtores migram para as cidades, deixando de ajudar na produção de alimentos importantes para a economia, a saúde e a cidadania. Restam em Capanema produtores mais velhos, que muitas vezes não têm energia para aguentar um modo de produção tão exigente. Se o sol de outono, com a gente assim, parado, maltrata, o de verão, trabalhando na enxada, deve ser algumas vezes mais complicado. Com 40, 50 anos de lida, então, entende-se o cansaço.

Para que tenham direito à agricultura ecologicamente correta, os produtores de Capanema precisam de ajuda. “Minha ideia é continuar produzindo. É difícil desistir. Só se a empresa amanhã ou depois fechar as portas. Mas sempre digo que fui dos primeiros a entrar, e quero ser o último a sair”, conclui Alberto. Que o sorriso dele, então, continue desenhado em seu rosto.

Link direto em: http://www.redebrasilatual.com.br/revistas/62/ambiente

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