Ecoagência – Resgate -Cristina Kirchner ordena investigação de agrotóxicos da Monsanto e Dupont

Jornal Página/12, de Buenos Aires, denunciou contaminação no país causada por glifosato, usado na soja transgênica, e endosulfan.

15 de Janeiro de 2009

Por Redação da EcoAgência

Na sua primeira reaparição pública, quarta-feira (14/02), após afastamento de alguns dias em função de um desmaio, a presidenta da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, fez um pronunciamento na sala de Convenções de Olivos, a sede do governo, em que o tema principal eram as medidas para o setor rural, afetado pela crise econômica mundial e a seca. Mas ela incluiu no seu discurso uma surpresa, para um público muito favorável à soja transgênica. Anunciou que ordenou à sua ministra da Saúde, Graciela Ocaña, que realize uma investigação oficial sobre o impacto para a saúde dos agrotóxicos utilizados nas lavouras. Referia-se, especificamente, ao glifosato, produzido pela empresa Monsanto, e o endosulfan, comercializado pela multinacional Dupont. “São fatos muito importantes, relacionados com a saúde de todos os argentinos e sendo assim ninguém pode discutir questões de competências e jurisdições”, assegurou CFK, conforme notícia do jornal Página/12, de Buenos Aires, publicada ontem.

Os jornalistas Martin Piqué e Darío Aranda relatam que ela ainda mandou um recado sutil aos governadores das províncias (estados) sojeiras: “Apesar de ser competência exclusiva de municípios e províncias, pedi à ministra da Saúde da Nação que realize uma investigação”, afirmou.  Estavam presentes os governadores Juan Schiaretti (Córdoba), Hermes Binner (Santa Fé), Daniel Scioli (Buenos Aires) e Gerardo Zamora (Santiago del Estero).  A ministra da Saúde já solicitou a funcionários de sua pasta que contatem especialistas da Organização Panamericana de Saúde e da Universidade de Córdoba.
Segunda-feira, o Página/12 publicou em matéria de capa uma investigação sobre todos os casos de contaminação com agrotóxicos que foram denunciados na Argentina. Segundo as denúncias de médicos, ONGs e movimentos de camponeses, o glifosato comercializado pela Monsanto (vendido com o nome de Roundup) está produzindo malformações nos embriões, problemas de fertilidade, enfermidades respiratórias, câncer, problemas de pele, olhos e ouvidos em localidades de Entre Rios, Santiago del Estero, Córdoba, Chaco, Santa Fé e Formosa. Diz o jornal que, nestas denúncias, coincidiram o chefe de Biologia Molecular do Instituto de Medicina Regional de  Resistência, Horacio Lucero, e um grupo de epidemiologistas e endocrinologistas do Hospital Italiano de Rosário.
Os efeitos dos agrotóxicos também foram denunciados pela Organização Panamericana de Saúde (OPS). Essa organização confirmou as denúncias de vizinhos a partir de um caso particular: o bairro Ituzaingó Anexo, localizado trinta minutos do centro da capital de Córdoba, onde vivem umas cinco mil pessoas. O bairro está literalmente rodeado por campos de soja. As plantações se estendem até o sul, norte e leste da área urbana. Apenas uma rua as separa das edificações. Em Ituzaingó Anexo já há comprovados duzentos enfermos de câncer. É comum observar por suas ruas mulheres com lenços na cabeça, pela quimioterapia, e crianças de boné, com leucemia.
Inteirado do caso, o fiscal de instrução do Distrito III de Córdoba, Carlos Matheu, ordenou uma medida cautelar que impede que se fumigue a menos de 500 metros das zonas urbanas. Também estabeleceu uma distância mínima de 1.500 metros para as fumigações aéreas.
O fiscal também ordenou estudos bioquímicos nos pátios das casas do bairro. Os resultados mostraram presença de endosulfan e glifosato. O funcionário do Ministério Público seguiu com vistorias a galpões de chacareiros e processos a vários produtores de soja, ao proprietário do avião fumigador e ao piloto que freqüentemente voava sobre as casas de Ituzaingó Anexo. Acusou-os de haver violado a Lei Provincial de Agroquímicos e de incorrer na figura penal de “contaminação dolosa do meio ambiente de maneira perigosa para saúde”.
O jornal argentino conta que o assunto não é novo para o Ministério da Saúde. Em 2002, essa pasta publicou um estudo realizado na localidade santafesina de Bigand com o objetivo de “determinar fatores de vulnerabilidade em populações expostas aos praguicidas”, relata. A investigação se fez em conjunto com a cátedra de Toxicologia e Química da UBA e as conclusões foram contundentes. “Mais da metade dos pesquisados e cem por cento dos fumigadores referem que eles ou conhecidos estiveram intoxicados alguma vez. Em sua imensa maioria, não têm contrato de trabalho, nem cobertura médica, e recebem por empreitada”. O trabalho confirma efeitos agudos como alergias, dor de cabeça, tonturas e irritação respiratória. “São mencionados mais de 40 pesticidas, predominando o uso do glifosato”, detalhava. Apesar de a investigação ter sido publicada há seis anos, o Ministério da Saúde não seguiu com esses estudos e nem voltou a se ocupar do assunto nos anos seguintes.
Até que Presidenta, surpreendentemente, mencionou-o em seu discurso.
Página/12 – Quinta-feira, 15/01/2009. Tradução de Ulisses A. Nenê – EcoAgência.

Link direto em: http://www.ecoagencia.com.br/?open=noticias&id===AUUJkVWxGZHNlRaNVTWJVU

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