Revista Cláudia – O Brasil é o campeão dos agrotóxicos

Um bilhão de litros de herbicidas e pesticidas derramados todo ano no solo – e o Brasil se torna o país que mais consome agrotóxicos no planeta. Na cidade de Lucas de Rio Verde (MT), o leite materno contaminado chama a atenção para os perigos da agricultura. Leia esta reportagem e proteja sua família

Kátia Mello

A notícia sobre a contaminação por agrotóxico caiu como uma bomba sobre os 40 mil moradores de Lucas de Rio Verde (MT). A 350 quilômetros de Cuiabá, com um dos melhores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do país, a cidade, de apenas 22 anos, cresceu e enriqueceu com o agronegócio e se orgulha de pertencer à cúpula dos maiores produtores brasileiros de soja e milho. Em março passado, a surpresa: saiu o resultado do teste do leite materno, que deveria ser o mais genuíno dos alimentos servidos aos humanos. Um ano antes, num posto de saúde local, 62 mães doaram amostras. Todas as provas, sem exceção, apresentaram algum tipo de veneno – até mesmo um derivado do DDT, banido no Brasil em1985 pelo alto grau de toxicidade. A investigação sobre o aleitamento, feita por pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), é parte de um estudo bem mais amplo, no estado e em Goiás, sobre as ameaças à saúde associadas aos defensivos agrícolas. O capítulo de Lucas do Rio Verde começou depois de um acidente em fevereiro de 2006: um avião que pulverizava as lavouras deixou uma nuvem de veneno no ar, queimando chácaras, hortaliças e atingindo nascentes. O método aéreo, muito comum no Brasil, é proibido na União Europeia, porque o vento pode espalhar a química sobre animais e populações vizinhas. Em Lucas, no primeiro momento, causou um surto de vômito e diarreia.

Sinal vermelho

A Anvisa encontrou alimentos com defensivos em excesso. Os mais comprometidos:

80% – Pimentão
56,4% – Uva
54,8% – Pepino
50,8% – Morango
44,2% – Couve
44,1% – Abacaxi
38,8% – Mamão
32,6% – Tomate
27,2% – Arroz
24,8% – Cenoura

 

De olho no futuro

Antonella, 1 ano e 3 meses, ainda mama no peito da professora gaúcha Claudimara Andreola Rubin, 42 anos, uma das 62 mães que tiveram o leite analisado. Mesmo preocupada com o resultado, ela decidiu continuar amamentando a filha, que não apresentou nenhum sintoma. O pediatra Jaime Floriano confirmou que a criança é saudável. Ele nunca viu os dados do estudo, mas afirma: “Só dá para saber se realmente há malefícios acompanhando essas crianças durante anos”. A bióloga Danielly Palma, autora da pesquisa de mestrado da UFMT, explica que “a gravidade está na própria contaminação, uma vez que o leite deveria ser totalmente puro”. O médico e professor Wagner Pignati, que coordena esse estudo, consegue extrapolar os efeitos de um acidente como o de 2006 para a vida de cada uma de nós – e das nossas famílias. Os agrotóxicos estão presentes na nossa rotina e sonhar com uma dieta livre deles é utopia. A questão, para ele, é a carga cumulativa. “Uma pessoa exposta à toxicidade excessiva por meses e anos pode sofrer diminuição na acuidade visual ou auditiva, distúrbios neurológicos e até desenvolver câncer ou doença de Parkinson”, diz. O sistema endócrino enfrentaria panes, alterações na insulina ou nos hormônios da tireoide. Pignati lembra que a contaminação de uma grávida pode aumentar a probabilidade de aborto. “Há ainda a possibilidade de o tóxico passar via placenta e causar má-formação fetal.”

A torcida é para que Antonella e as outras crianças nunca apresentem sintomas. Mas a investigação é necessária. Os resultados obrigam o país a repensar a agricultura que desenvolve. É verdade que, com as práticas modernas, o Brasil se tornou competitivo no mundo. Profundamente inquietante, porém, é constatar que oferecemos às nossas crianças uma comida que não sabemos bem o que carrega. Quanto de pesticida está embutido no morango, no tomate ou na cenoura? Produzimos anualmente 150 milhões de grãos, o suficiente para alimentar a população local e exportar, afirma Luís Eduardo Pacifici Rangel, coordenadorgeral de Registro de Agrotóxicos e Afins do Ministério da Agricultura. A revolução verde, nos anos 1960, trouxe a modernização e o aumento da produção, com a introdução dos insumos químicos. A partir daí, o setor passou a defender os agrotóxicos. Os motivos: eles reduzem os custos de mão de obra e melhoram a qualidade dos produtos. Isso deu ao país o troféu de campeão mundial no uso de defensivos químicos (em números absolutos), o que se repetiu três vezes nos últimos anos, superando os Estados Unidos. Incômodo campeonato. Nas contas do sindicato que reúne os produtores de defensivos, só em 2009 consumimos 1 bilhão de litros. Pronunciar agrotóxico é o mesmo que dizer fungicidas, inseticidas, herbicidas e outros venenos. O Brasil tem legislação que estabelece a quantidade e a forma de aplicação. Se ela fosse rigorosamente seguida, os alimentos teriam apenas resquícios dessas substâncias, que, para especialistas, não afetariam a saúde.

Com o uso contínuo, algumas pragas se tornaram muito resistentes a essas substâncias. Como acontece com os antibióticos, elas vão perdendo a eficácia quando aplicadas constantemente. Diante da resistência redobrada de insetos e pestes, os fazendeiros andam carregando a mão nas doses de veneno. O duro é que o morango comprado na feira não vem com bula que explica os efeitos adversos e os males a que ficamos expostas se a fruta tem agrotóxicos demais. Não adianta evitar o morango, porque a química chega ao organismo por vários caminhos. Um exemplo: a soja, transgênica ou não, é uma cultura muito tratada com defensivos. Responsável pela metade da produção agrícola brasileira, entra em 70% dos alimentos processados. Nem o lombi nho assado está livre dos resíduos de agrotóxicos: o porco de granja se alimenta de ração, e ela é feita de soja.

 

Fiscalização frágil


Claudimara e Antonella: um susto com o leite contaminado

A inspeção dos alimentos é tarefa da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Funciona assim: uma equipe recolhe amostras em supermercados e feiras em 26 estados e envia para laboratórios. No ano passado, a agência divulgou que 29% dos 20 itens, num total de 3 130 amostras coletadas em 2009, apresentaram irregularidades, como resíduos de agrotóxicos acima do permitido (veja “Sinal vermelho”). Segundo a Anvisa, 15% da nossa comida tem taxa de veneno prejudicial. Os maiores riscos estão nos contaminados por endossulfan (usado em lavouras de pimentão e pepino), seguidos por acefato (cebola e cenoura) e metamidofós (comum na plantação de tomate e alface). Essas três substâncias, banidas há uma década nos Estados Unidos e na União Europeia, integram a lista dos 14 agrotóxicos que estão sendo reavaliados pela Anvisa. O endossulfan, que causaria câncer e má-formação fetal, figura entre os cinco que serão proibidos no Brasil em dois anos, de acordo com a agência. Até lá, uma das possibilidades de se proteger é mexer na dieta. O problema não é comer apenas um alimento com defensivos em excesso, mas vários numa mesma refeição. Outra saída é espaçar os ingredientes. Pepino e pimentão, entre os mais suscetíveis à contaminação, devem voltar à mesa a cada 30 dias.

Já o controle do uso de defensivos cabe aos ministérios da Saúde, da Agricultura, da Pecuária e Abastecimento e do Meio Ambiente. Esses órgãos recebem dos estados e municípios comunicados sobre o que se passa nas lavouras. O caso de Lucas do Rio Verde, dizem as assessorias dos dois primeiros ministérios, não foi notificado oficialmente. Eles souberam pela mídia.

Luís Rangel alega que no Brasil o mau uso dos defensivos é frequente. O Censo Agropecuário do IBGE concluiu, em 2006, que, do total de 1,5 milhão de produtores que se valem dos defensivos químicos, 56% não receberam nenhuma orientação técnica. “Temos mais de 800 mil agricultores de pequeno e médio porte e é impossível acompanhar todos eles”, afirma. Um agricultor pode adotar equipamento de proteção individual e estar a salvo, mas, se despejar agrotóxico a menos de 500 metros de um córrego, coloca em risco a região.

Durante 15 anos, a agricultora Rosiele Cristiane Ludtke, 33 anos, cultivou com a família 33 mil pés de fumo na terra que mantêm em Paraíso do Sul, a 220 quilômetros de Porto Alegre. Em 2008, quando colheram o fumo úmido e venderam para uma grande empresa, Rosiele foi internada com muita dor de cabeça, náusea e vômito. “No hospital, disseram que eu estava intoxicada”, conta. A irmã dela, Lívia, permaneceu três dias hospitalizada. Hoje, Rosiele planta milho, feijão, batata, cebola e alho sem agrotóxicos. “Ganho menos, porque a produção é menor, mas vivo com mais saúde”, afirma. Segundo a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em 2009 foram 3 813 casos de intoxicação e 115 mortes por contaminação com agrotóxicos. De cada 100 casos, três são letais. “É a maior le ta lidade entre os agentes tóxicos”, diz Rosany Bochner, que coordena o sistema de informações tóxico-farmacológicas da Fiocruz. Ela explica que os agrotóxicos são sistêmicos – ou seja, entram pela seiva da planta – ou de contato, que se fixam na parte externa. “No primeiro caso, a lavagem não tira a química, porque ela foi absorvida.” O médico Ângelo Trapé, professor de saúde ambiental da Unicamp, diz que com o de contato é diferente: “Lavar os alimentos basta”.


Rosiele trocou a lavoura de fumo pela plantação orgânica: “Vivo com mais saúde”

O que vai matar a fome?

O Brasil teria condição de migrar para grandes plantações agroecológicas no médio prazo? “Precisamos encontrar ferramentas que ofereçam à agricultura um ganho, sem impactos severos na saúde e no ambiente”, diz Luís Rangel. O Ministério da Agricultura está incentivando a adoção de defensivos biológicos, originados de organismos vivos ou de matéria-prima de fermentação. O país usava 1% de biodefensivos em 2001, chegou a 3% no ano passado e tem como meta atingir 5% em 2015. A ação ainda é tímida. “Algumas multinacionais que fabricam agrotóxicos já entenderam que não ganharão a briga e que é melhor aderir ao programa”, afirma.

O planeta está polarizado entre o agronegócio e a agroecologia. O x da questão é que a lavoura orgânica, sem química alguma, tem produtividade 40% menor e seus frutos ficam 30% mais caros. O que faríamos com a fome do mundo? Jacques Diouf, diretor-geral da FAO (a agência da ONU para a agricultura), afirma que até 2050 será necessário aumentar em 70% a produção mundial de alimentos para abastecer a população, que chegará a 9 bilhões de pessoas. A transição para uma agricultura menos ofensiva ainda vai demorar várias décadas. Portanto, a caminhada promete ser longa.

 

Xô, veneno

ESCOLHA produtos locais. Os importados recebem mais produtos químicos para suportar a viagem.

PREFIRA os da época. As frutas só sobrevivem além da estação se receberem carga extra de agrotóxicos.

FECHE os olhos para a beleza. Legumes e frutas grandes e fotogênicos são obra de defensivos agrícolas e fertilizantes químicos.

LAVE com esponja e água corrente. Parte dos venenos sai com a higienização. Os que entraram pela seiva, porém, permanecem.

DESCASQUE os alimentos.

 

É possível: açúcar orgânico dá lucro

Quando criança, Leontino Balbo Júnior costumava enfiar o braço em buraco de cobra e pegar peixe com a mão. “Minha vida era barro e bicho. Eu me sentia o próprio Mogli, o menino lobo”, conta. No país campeão no uso de defensivos agrícolas, Balbo se tornou sócio e diretor da maior produtora e exportadora de açúcar orgânico no mundo, a Native, que fatura mais de 100 milhões de reais por ano, vendendo para 67 países. São 14 mil hectares de cana de açúcar, na paulista Sertãozinho, sem um único grama de veneno ou fertilizante químico. “Produzimos 110 toneladas por hectare”, diz. Ao se formar em agronomia em 1984, na USP, ele ficou chocado: os colegas começavam a trabalhar na venda de herbicidas, fungicidas e outros venenos. “Na faculdade, 95% do que se aprende é sobre a vida e apenas 5% sobre agrotóxicos”, afirma. O agrônomo desenvolveu o próprio método: a fertilização natural (com rochas especiais moídas, adubos verdes, palha da cana e efluentes industriais orgânicos reciclados) leva a cana à trofobiose − isso significa que ela readquire resistência para não ser mais atacada por pragas. Assim, se torna naturalmente imune. Formigas saúvas e outros inconvenientes são administrados pelo ecossistema.“É um controle biológico espontâneo.” Com isso, seus negócios crescem 30% a cada doze meses.

Foto de abertura, International Rescue/Getty Images; abacaxi, Kevin Summers/Getty Images; entrevistadas, arquivo pessoal; Leontino Balbo, Anna Carolina Negri

 

Link direto em: http://claudia.abril.com.br/materias/4933/?sh=31&cnl=31

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