Carta ao ICMBIO em relação aos agrotóxicos no Parque das Emas

Está em discussão no Parque Nacional das Emas (Goiás)  o uso de Glifosato, em parceria com a Monsanto, para o controle da braquiária na área de preservação. A braquiária é um tipo de capim africano introduzido no Brasil  para a alimentação do gado que tem avançado rapidamente pelo Parque. Segue a carta de Paulo Cezar Mendes Ramos, analista ambiental, sobre a situação. 

Caros dirigentes e colegas do ICMBIO,

Tomei ciência através de notícia da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás, sobre a decisão desastrosa tomada por dirigentes do ICMBIO. O uso proibido em Parques Nacionais, de venenos herbicidas. Um precedente nunca antes praticado, um risco inestimado que pode resultar em consequências desastrosas.

Acredito estarem a cometer um “suicídio científico” patrocinado pela Monsanto.

 O ICMBIO e as pessoas que comandam este processo poderão responder no futuro por suas decisões, que considero equivocadas.

Trabalhos científicos mostram os malefícios do Roundup que são simplesmente desconsiderados pelo ICMBIO.

 Desastrosa decisão, trocar gramíneas por veneno!

Como já expressei à colega Kátia Torres, as áreas protegidas necessitam de brigadas de controle de espécies invasoras e não de venenos. Querer tentar erradicação rápida – uma falta de visão estratégica e de paciência. As omissões, as ações mal planejadas e mal executadas passam a servir de argumento para desastrosos precedentes.

Obviamente o uso de herbicida é defendido pelos técnicos e dirigentes da Monsanto (texto da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás abaixo).

O que se percebe é que as invasoras passaram a ser uma preocupação que está justificando o uso de venenos. Ocorre que não se avalia ou se monitora de forma sistemática, os efeitos de curto, médio e longo prazo das aplicações de venenos.

Conheço a opinião do Instituto Horus, especialmente da Sílvia Ziller, que defende a utilização de herbicidas. Segundo o documento divulgado esta semana, ela afirma ser menor o impacto do herbicida que os efeitos das espécies invasoras. Sem minimizar a problemática das invasões biológicas, discordo da Sílvia, pois sequer existem trabalhos comprovando tal tese. Além disso, temos sim que nos preocupar com os impactos dos venenos. Existe farto material sobre os malefícios dos agrotóxicos, especificamente de herbicidas e, especificamente do Roundup, que anexei no email, que são suficientes para que trilhemos por outro modelo de controle.

Defendo um modelo diferente do que está sendo praticado.

Acredito que podemos definir níveis de tolerância para a ocupação de espécies invasoras, conforme uma pequena fórmula que apresento para ilustrar a idéia: Autóctones/invasoras; que percentual vamos aceitar de tolerância? Tolerância, pois como se sabe, para acabar com elas só acabando com tudo.

Acredito que podemos tratar das espécies indesejadas de forma mecânica, associado com a dispersão das espécies desejadas.

Como explicitei, acredito que poderemos tratar a questão de forma adequada, com a formação de brigadas exclusivas para lidar com as invasoras. Mencionei as brigadas de incêndio, por mim estabelecidas, mas aqui trato de brigada para trabalhar exclusivamente e permanentemente com as invasoras.

Opta-se pelos venenos, na falta de estratégias adequadas e permanentes de controle, que obviamente necessitam de pessoal capacitado para sua execução.

Como o ICMBIO não tem recursos e não tem gente estamos condenando as UCs aos efeitos conhecidos e desconhecidos dos venenos.

As invasões biológicas acontecerão de forma inevitável e permanente. Portanto, precisamos de modelos que não contaminem nossas UCs com venenos.

O que vai acontecer é que vamos aplicar venenos sempre e colhendo as consequências, que são nefastas.

Ainda que os venenos fossem totalmente eficientes, seus efeitos deletérios para as demais espécies e para o meio são suficientes para que busquemos outros caminhos, a precaução é a tônica.

Legalmente, o Regulamento de Parques Nacionais está sendo descumprido!

Menciono o Regulamento apenas como tentativa para que a casa reflita mais e mude o modelo para controlar as espécies invasoras.

Que consequências virão? Quem vai se responsabilizar?

Existem possibilidades sem a aplicação de venenos que carecem de estratégias e recursos, pois que sejam tentadas, antes de cair neste modelo de consequências inestimáveis.

Assim como estamos fazendo com os incêndios florestais em nossas unidades de conservação – com os trabalhos das brigadas, podemos perfeitamente criar brigadas para combater as espécies exóticas invasoras. Com estratégias de controle mecânico das invasoras, dispersão das espécies autóctones e educação no entorno das UCs podemos chegar a um coeficiente bastante aceitável de tolerância:

Autóctones/Invasoras = X

Percentual, relação de cobertura, ou outra medida qualquer que precisamos definir. Devemos estabelecer uma tolerância máxima para as espécies invasoras. Podemos até conseguir erradicações, mas sem ações extremadas.

Instituições oficiais persistem em introduzir espécies exóticas invasoras para uso na agropecuária, o que torna as infestações inevitáveis. Os usos das espécies invasoras junto aos limites das Unidades de Conservação contribuem para a dispersão dos vetores dessas espécies. As reinfestações são fartamente registradas em todo o mundo, portanto, a precaução deve ser a tônica para a tomada de decisões.

As práticas equivocadas de abertura de aceiros para o controle do fogo no Parque Nacional das Emas no passado, com a abertura de estradas e queima da vegetação entre as estradas criaram corredores para o ingresso das gramíneas exóticas invasoras. Nossa falta de atenção e desconhecimento é que tem gerado as infestações.  As espécies invasoras têm sido favorecidas por acidentes, mas principalmente por nossos erros.

Vamos agora tentar remediar com outro grande erro?

Com trinta e cinco anos dedicados a causa da proteção da biodiversidade e das Unidades de Conservação sinto-me impelido a deixar aqui registrado o meu protesto contra a utilização de Roundup ou qq outro veneno herbicida para o controle de gramíneas invasoras nas Unidades de Conservação.

Os efeitos nocivos dos herbicidas já conhecidos para os microorganismos dos solos, organismos aquáticos, vegetais e para a fauna são suficientes para que se mantenha proibido o uso destas substâncias nas nossas Unidades de Conservação.

A legislação é ainda proibitiva. O DECRETO Nº 84.017, DE 21 DE SETEMBRO DE 1979, que regulamenta os Parques Nacionais, determina que sejam proibidas quaisquer usos de substâncias que causem  modificações nos ecossistemas dos Parques.

A Portaria n° 14, de 2010, do Ibama, que permite o uso de herbicidas em ambientes naturais não é suficiente para que seja autorizada a aplicação destes venenos nos Parques Nacionais.

Anexei importantes informações também científicas sobre os malefícios do Roundup. Leiam, busquem mais informações e se forem convencidos mudem este rumo!

Não existe unanimidade de opinião no meio científico sobre a utilização de herbicidas para o controle das espécies invasoras em áreas protegidas.

Ocorre um verdadeiro pânico com relação às invasões biológicas e subestimam-se os efeitos dos herbicidas, principalmente com base nas informações fornecidas pelas agroquímicas que têm interesses comerciais óbvios.

É claro que desejo que os responsáveis pela decisão do ICMBIO repensem e tentem outras formas de controle das espécies invasoras. Já não restam espaços sem venenos. Tais venenos são mutagênicos, alergênicos, promovem uma bagunça na dinâmica dos ecossistemas, predação de plantas por insetos e ataques de organismos patogênicos, dentre tantos efeitos por ser desvendados.

Os que decidiram pelos venenos estão voltados para os improváveis benefícios de uma desastrosa tentativa de erradicação das gramíneas invasoras e simplesmente desconsideram os efeitos deletérios do Roundup e de outros herbicidas para toda a complexidade da vida nas nossas UCs.

Nada é medido ou monitorado sistematicamente. Aplica-se o veneno, observa-se a desejada mortalidade das espécies alvo e nada mais.

O que estão fazendo no Parque Nacional dos Aparados da Serra e o que estão prestes a fazer no Parque Nacional das Emas não tem retorno e se traduz em um precedente nocivo para todas as Unidades de Conservação deste país.

 Por todos os argumentos aqui apresentados, rogo que o uso de venenos em nossas Unidades de conservação seja proibido e que métodos ecológicos e socioambientais sejam à base das ações do ICMBIO para controle e mesmo  erradicação das espécies exóticas invasoras.

  Brasília, 25 de abril de 2011.

Paulo Cezar Mendes Ramos Ph D – Analista ambiental – Parque Nacional de Brasília

 Formação: graduação engenharia florestal UFRRJ, mestrado em ecologia UNB, mestrado em agroecologia Universidade Internacional de Andalucia (Espanha) e doutorado em Geografia Universidade de Edimburgo (Escócia). Mais os trinta e cinco anos de trabalho desde o IBDF, Ibama e agora ICMBIO, sempre lidando com dinâmica e manejo de unidades de conservação.

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